

Vénus, Marte, Mercúrio e Plutão
Como sabemos, a União Astronômica Internacional (UAI) deu um pontapé em Plutão. O que me espanta é a quantidade de pessoas que se preocuparam com isso. Algumas ficaram deprimidas. Elas cresceram com Plutão e agora ele foi rebaixado a um anão como muitos outros personagens de Disney. Felizmente a UAI esperou até depois de 1997, quando Clyde Tombaugh faleceu. O descobridor do último planeta foi feliz para o túmulo, embora ainda estivesse por aqui quando começamos a entender como realmente era "Pateta" o nono mundo. Gostei da decisão da UAI. Convidado ao Late Show de David Letterman há alguns anos, reafirmei que Plutão não é realmente um planeta. A decisão inicial pró-planeta de uma comissão da UAI em agosto passado teria me derrubado.
A resolução da UAI produziu conseqüências adicionais. Ceres foi promovido de asteróide para planeta anão, só porque é arredondado. Mas a UAI não está enganando ninguém. Ceres continua um asteróide.
Caronte, principal lua de Plutão, foi também um planeta por cerca de uma semana, antes que os astrônomos ridicularizassem essa idéia. Agora ele retornou a apenas uma das 140 estranhas luas do Sistema Solar.
Os critérios iniciais da UAI para um corpo ser considerado planeta incluíam uma cláusula que, em sistemas de dois corpos, o objeto menor candidato a planeta orbitasse ao redor de um ponto fora da superfície do maior.
A rigor, nenhum objeto orbita ao redor de outro. Cada par de objetos executa uma dança em torno do centro de gravidade comum, ponto no espaço em que suas gravidades se equilibram. No par Plutão-Caronte esse ponto encontra-se um pouco fora da superfície de Plutão. À Lua, quatro vezes maior que Caronte, foi negado o status de planeta porque o ponto de equilíbrio entre ela e a Terra fica abaixo da superfície da Terra, 26% do seu raio.
Mas veja só: a Lua está se afastando à velocidade de 4 cm por ano. Assim, algum dia, esse ponto de equilíbrio se deslocará para fora da superfície da Terra. Nesse momento, de acordo com a primeira definição da UAI, ela se tornaria um planeta. Não é de espantar que tenham abandonado essa história. Estava tudo muito complicado.
Ninguém admitia, mas havia um ingrediente oculto nas deliberações. A palavra "planeta" tem um lugar especial em nossos corações porque vivemos num deles. Tacitamente queremos que o nosso mundo integre um clube especial, e isso tem sido verdade até agora. Até jovens estudantes conhecem os nomes dos planetas. Cada planeta é famoso. Assim, de certa forma, a UAI precisou de um critério de filiação que mantivesse os penetras afastados. Qualquer sociedade que inclua um Júpiter e um Saturno, não deveria conceder filiação a qualquer pedaço de lixo gelado menor que a Lua. Isso estragaria a vizinhança.
Houve então a questão da tradição. Plutão quase conseguiu o status de planeta porque tem nos acompanhado por toda vida. Mas o problema é que, se você deixa Plutão entrar, abre as portas para todos aqueles minúsculos e desprezíveis membros do Cinturão de Kuiper. Logo teríamos 15 planetas, depois 40, e eles teriam nomes estranhos, e ninguém se lembraria de todos eles e...
Bem, isso não aconteceu. Mas estou surpreso que a sede de sangue na batalha não tenha inspirado a UAI a atacar outros objetos celestes. Por que parou em Plutão? Por que não cortou todas as designações incomodativas em todo o Universo?
Como as constelações do Cancer (horrível), Virgo (provoca risadinhas) e Musca (uma mosca). Quem decidiria glorificar uma peste? Mantenha Musca e você poderá também vir com um "Virella, o Vírus". Golden Retriever - eis aí uma criatura que merece pertencer aos céus. Antlia, Scutum e outras dezenas de nomes deveriam ter sido abolidos séculos atrás. Enquanto você estiver a fim, renomeie todas as estrelas com seis ou mais sílabas: Zebeneschamali, por exemplo, que significa "garra" embora seja parte de Libra. Balanças não deveriam ter garras, exceto em pesadelos.
E batize mais galáxias. Atualmente só algumas dezenas têm nomes oficiais, enquanto bilhões de outras mais recebem indignas letras e números como de placas de veículos.
A UAI pode manter todo o resto. Todos aqueles termos envolvendo cor são bons. Buraco negro, anã-marrom, gigante-vermelha, flash verde, desvio espectral para o azul, anã-branca. Termos bonitos e cativantes. Os termos referentes a distâncias também são fabulosos: parsec, ano-luz e unidade astronômica. Soam bem.
Na verdade, se se pensa nisso, toda ciência tem uma nomenclatura bastante boa. A astronomia pode estar ao alcance da maioria das pessoas, mas a sua linguagem é maravilhosamente intrigante, e a maioria dos seus corpos celestes soa como deveria: exótica e deslumbrante.
Então - mantendo afastadas novas alterações por astrônomos planetários que odeiam tudo isso - simplesmente nos habituaremos a "planeta anão". Sinto muito, Plutão, mas você deveria ter percebido isso antes.
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