

O cometa McNaught estende-se pelo céu austral em 19 de janeiro de 2007, e os componentes de sua cauda de poeira pendem sobre o horizonte oeste logo após o pôr-do-sol. A foto mostra o cometa observado no céu do Colorado, ao escurecer, com sua cabeça mergulhada 20º no horizonte
O cometa de Chéseaux também mostrou uma cauda de diversos componentes, que apareceu no céu do leste antes do nascer do Sol. Esta gravura, feita à mão, registra uma dúzia de estacas separadas, como foram vistas de Berlim antes do início da aurora em 7 de março de 1744
A cauda cheia de raios do cometa McNaught lembra de forma impressionante a do grande cometa de 1744
Assim como acontecia com o personagem Ferdinando, dos clássicos quadrinhos de Al Capp, havia sempre uma nuvem sobre a minha cabeça. Eu vi o melhor cometa das últimas décadas, o C/2006 P1 (McNaught), apenas uma vez – de um avião a 12.500 m de altitude. Assim como muitas pessoas ao norte do Equador, apreciei o cometa de forma indireta, pelas imagens dos observadores mais favorecidos do Hemisfério Sul.
Mas para mim as imagens mais interessantes foram feitas em meados de janeiro, de lugares mais ao norte. Essas imagens mostram raios brilhantes de luz pairando como fantasmas sobre o horizonte a sudoeste, depois do crepúsculo. Imediatamente senti que já havia visto aquilo no passado.
E era verdade. As imagens eram de um livro que eu guardara como um tesouro da infância: A picture history of astronomy (Uma história da astronomia por imagens), de Patrick Moore, publicado em 1961. Entre as imagens de cometas famosos havia uma gravura de um objeto espetacular visto em 1744, identificado como o cometa “de Chéseaux”. A estampa mostrava um espetáculo com cinco caudas, iluminando o céu da Europa antes do amanhecer, a partir de um núcleo que não podia ser visto. Os astrônomos viram muitos cometas se aproximarem do Sol nos últimos dois séculos e meio, desde o cometa de Chéseaux, mas nenhum teve as características daquele – até agora.
O Grande Cometa de 1744 – oficialmente designado C/1743 X1 (Klinkenberg-de Chéseaux) – não tem qualquer relação física com o McNaught. No entanto, os dois compartilham histórias de observação e propriedades orbitais consideravelmente parecidas.
Jean-Philippe Loys de Chéseaux foi um rico proprietário de terras e astrônomo suíço que encontrou um cometa em 13 de dezembro de 1743. Apesar de o astrônomo holandês Dirk Klinkenberg tê-lo descoberto quatro noites antes, as rigorosas observações de Chéseaux permitiram a determinação da órbita do cometa. O C/1743 X1 tinha uma órbita parabólica que o levou a 33 milhões de km do Sol, no periélio, em 1o de março de 1744. A órbita também se inclinou acentuadamente (47º) para a eclíptica.
O cometa brilhou por algumas das semanas seguintes e, por volta de fevereiro de 1744, seu brilhou rivalizou com o da estrela Sirius. Ele então exibiu uma cauda curva com cerca de 15º de comprimento. O C/1743 X1 seguiu um trajeto que o levou a tangenciar o disco do Sol e, no final de fevereiro, foi visto a olho nu apenas seis minutos antes do nascer do Sol. No dia 28, observadores o avistaram em diversos momentos do dia, a cerca de 12º do astro.
Durante a semana seguinte, o cometa deslizou para baixo do horizonte. Então, nas manhãs de 7 e 8 de março, De Chéseaux mostrou um espetáculo fantástico: com a cabeça do cometa aproximadamente 20º abaixo do horizonte, seis magníficas caudas brilharam acima da linha do horizonte, a leste. Outros observadores confirmaram esta visão.
A órbita do cometa McNaught tem muitas características em comum com a do de Chéseaux. Ela também é parabólica (ou quase) e tem um periélio bastante próximo do Sol, a 26 milhões de km, além de uma alta inclinação (77º). O McNaught também ficou espetacularmente brilhante próximo ao seu periélio e foi visto à luz do dia. E ele também se moveu tangenciando o Sol em seu caminho para o periélio, e então mergulhou para fora da vista dos observadores do Hemisfério Norte.
| Um olhar rápido sobre as trajetórias orbitais dos dois cometas mostra que elas são quase simétricas, como se fossem um objeto e seu reflexo no espelho. Apesar de atingirem o periélio em lados opostos do Sol, ambos chegaram do norte, fizeram uma grande curva no periélio e então se voltaram para o sul. Os observadores viram C/1743 X1 antes do amanhecer e o C/2006 depois do pôr-do-Sol. Os dois cometas liberaram imensas quantidades de poeira quando passaram próximo ao Sol, no periélio. Mais provavelmente, essa poeira foi ejetada em uma série de explosões, talvez relacionadas aos períodos de rotação dos respectivos núcleos. A pressão da radiação solar então alongou essas nuvens de poeira em lençóis. Nos dois casos, nossa perspectiva da Terra favoreceu a dispersão da luz do Sol pelos grãos de poeira enquanto eles se espalhavam a partir de suas primeiras localizações. Alinhamentos geométricos tão precisos entre o Sol, a Terra e um cometa não acontecem a toda hora – só conhecemos estas duas vezes – mas os resultados são verdadeiramente espetaculares. |
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