domingo, 25 de março de 2007

O Céu Estrelado

Para observar o céu, tudo o que você deve fazer é afastar-se da iluminação urbana. Procure um lugar, de preferência mais elevado, para ampliar os limites do horizonte. Se possível, use uma dessas espreguiçadeiras de praia que permitem deitar de costas, numa posição confortável, com toda a abobada celeste frente aos seus olhos. Caso contrário, cubra o chão com algum material capaz de proteger contra a umidade do solo e a eventual picada de insetos ou outros pequenos animais. Faça tudo isso, de preferência, ainda com a luz do dia, eventualmente na companhia de uma ou mais pessoas. E prepare-se para o grande espetáculo, logo que a noite chegar.

Comece sua viagem pelo espaço-tempo. O céu estará aberto aos seus olhos como uma imensa catedral onde pelo menos 7 mil estrelas visíveis a olho nu parecem crepitar como fogueiras distantes. De alguma maneira, são fogueiras distantes, mas o combustível que as alimenta é de natureza termonuclear. A fusão nuclear - envolvida com a transformação de elementos químicos, como previam os alquimistas - é a usina de força das estrelas. Se o fogo e a panela dos alquimistas eram fraco e reduzido para promover a transmutação dos elementos, o enorme caldeirão estelar, com temperaturas de milhões de graus no núcleo, pode fazer essas transformações. E, em conseqüência disso, liberar energia. Entre essas formas de energia, a luz visível que suas retinas recebem. Ela chega de profundezas variáveis do espaço-tempo. Alguns exemplos: Sírius, a estrela mais brilhante do céu (Alfa do Cão Maior) está a 8,7 anos-luz da Terra. Aldebaran (Alfa de Touro) encontra-se a 64 anos-luz e Antares (Alfa do Escorpião) está a 365 anos-luz.

O que significa isso?

Significa que a luz que saiu de Aldebaran, por exemplo, viajou 64 anos (deslocando-se a 300 mil km por segundo, a luz percorre perto de 9,5 trilhões de km em um ano, distância que os astrônomos chamam de um ano-luz) antes de atingir sua retina e ser interpretada pelo cérebro como a luz de uma estrela. Se você quiser saber a distância, em quilômetros, até Aldebaran, basta multiplicar 64 por 9,5 trilhões (60,8 quatrilhões de km). Mas esse é um número tão grande e difícil de se imaginar que os astrônomos preferem representar apenas como 64 anos-luz.
Estrelas duplas

A nomenclatura das estrelas duplas é simples. A "principal" é a dupla mais brilhante do par e os astrônomos as consideram o centro do sistema. A estrela mais pálida é a companheira, ou "secundária". A "separação" mede a distância entre as estrelas em segundos de arco. Os astrônomos medem o ângulo de posição em graus do norte (0°) para oeste (90°) e retornando ao norte (360°)

A ESTRELA PRINCIPAL de Ras Algethi (Alfa [] Herculis) varia de magnitude 2,7 a 3,9, enquanto a companheira mantém magnitude 5,4;

A 70 OPHIUCHI exibe cores incomuns para uma estrela dupla. O par combina uma principal amarela de magnitude 4,2 com uma companheira vermelha de magnitude 6,2. OPHIUCHUS, A PORTADORA DA SERPENTE, é uma constelação ao norte do centro da Via Láctea. Hercules fica em sua margem norte;

OMICRON (o) CYGNI é um par bastante separado (106") que fica a 5° a oeste-noroeste de Deneb (Alfa Cygni). Com baixa magnificação, esta estrela dupla imita Albireo, amarela e azul;

CYGNUS, O CISNE, fica ao longo dos densos campos de estrelas da Via Láctea e por isso mesmo é repleto de grandes estrelas duplas para telescópios de todas as aberturas;

ALBIREO (Beta [b] Cygni) marca a cabeça de Cygnus, o Cisne. Albireo pode ser a estrela dupla mais conhecida do céu. Suas componentes dourada e safira brilham com magnitudes 3,4 e 4,7;

BOÖTES possui muitas estrelas duplas, mas poucas tão brilhantes quanto Izar;

IZAR (Epsilon [e] Boötis) combina a luz de estrelas de magnitudes 2,6 e 4,8. Se você tiver dificuldade para encontrá-la, apenas olhe 10° a nordeste de Arcturus (Alfa Boötes). As componentes desta estrela dupla se separam por apenas 3", então use magnificação alta para separá-las;

Gama () Delphini fica a cerca de 15° a leste-nordeste da brilhante Altair (Alfa Aquilae), na ponta do paralelogramo que forma a pequena constelação Delphinus. Tipicamente, os observadores descrevem as cores deste par como amarelo e verde-limão;

DELPHINUS, O GOLFINHO contém diversos objetos interessantes, como o aglomerado globular NGC 7006. Sua estrela dupla mais interessante é Gamma.

Estrelas Duplas No Céu





As estrelas duplas são alvos fáceis para telescópios de todos os tamanhos. Muitas combinam estrelas de cores deslumbrantes. Por serem fontes pontuais, você pode observar as mais brilhantes mesmo sob céu claro ASTRONOMY: THEO COBB; BACKGROUND IMAGE: JOHN CHUMACK

Observar estrelas duplas é uma das experiências mais fascinantes, ainda que menosprezada, na investigação do céu. Mesmo pequenos telescópios podem enxergar milhares destas jóias e nenhum par é exatamente parecido. Além disso, você pode apreciá-las em noites que servem para tudo, exceto para observar outras maravilhas do céu profundo, devido à neblina, interferência luminosa da Lua ou artificial.

Enquanto duplas de azuis e brancas bem conhecidas como Mizar (Zeta [z] Ursa Majoris) e Castor (Alfa [a] Geminorum) ou algumas douradas como Algeiba (Gamma [g] Leonis) aparecem bem no telescópio, são os pares com contrastes marcantes de cores que empolgam a maioria dos observadores.

Você descobrirá alvos entre as estrelas vistas a olho nu, que se distinguem bem quando vistas pelo telescópio. Como disse J. Dorman Steele há mais de um século, "cada cor que fulgura nas flores do verão incandesce nas estrelas à noite". E enquanto muitas destas cores são ilusórias - resultado dos efeitos do contraste entre estrelas de brilho diferente - em outros casos elas são reais.

Aqui estão 21 das duplas coloridas de que mais gosto. Organizadas em ordem de ascensão reta, elas fornecerão a você um ano inteiro de prazer em suas observações. Para melhor resultado, use a menor magnificação capaz de separar cada par. Às vezes, desfocar um pouco a imagem (o que uma vista ruim já faz) ajudará a perceber tonalidades sutis, pelo espalhamento da luz por uma área maior de sua retina.

Presentes duplos da primavera
A constelação de Cassiopéia abriga uma gema pouco conhecida - a Struve 3053 - cujos tons dourado e azul fazem alguns observadores relembrar a famosa Albireo, que é vista no inverno. Apesar de ser notavelmente mais pálida, a Struve 3053 é uma presa fácil para um telescópio de 8 cm (3 polegadas) com 30x. Ela é melhor observada com um telescópio de 20 cm (8 polegadas) a 60x.

Eta () Cassiopeiae é uma bela dupla em que a estrela principal, amarela e de quarta magnitude, brilha mais que sua companheira, que é roxo-avermelhada. Ela já foi descrita como castanha, lilás, lavanda e mesmo alaranjada por outros observadores. Um telescópio de 5 cm (2 polegadas) a 25x mostra a cor característica da componente menos brilhante, mas Eta se torna mais surpreendente à medida que a abertura aumenta. Com um telescópio de 25 cm ou 30 cm a 60x ou mais, prepare-se para ficar boquiaberto.

Uma das estrelas duplas mais coloridas é Almach (Gama [] Andromedae). A estrela principal tem cor topázio e sua companheira aparece em tom de água-marinha. As cores são lindas com um telescópio de 10 cm, de 50x a 100x. Devido às estrelas estarem separadas por apenas 10", a visão não perde impacto quando feita com telescópios grandes. Os observadores tendem a usar magnificações mais altas com telescópios maiores, de maior distância focal. Muitas vezes isso separa excessivamente os pares.

Abaixo de Órion, em Lepus, você encontrará Gama () Leporis, uma dupla grande e atrativa para telescópios pequenos. A estrela principal é amarelada e a outra, castanho-avermelhada. O colunista de Astronomy Phil Harrington descreve o par como "banhado com cor viva", e o considera um dos mais admiráveis do céu. Enquanto uma bela vista pode ser obtida com um refrator de 5 cm a 25x, a dupla é muito separada para obter melhores resultados com magnificações maiores.

Em um artigo há alguns anos, chamei h3945 em Canis Major de "Albireo do verão", e o apelido parece ter pegado. Este conjunto magnificamente colorido brilha com tons de vermelho-fogo e azul-esverdeado. As duas estrelas são impressionantes com um telescópio de 8 cm a 30x e maravilhosas com instrumento de 15 cm a 50x. O prefixo "h" indica que é uma das muitas duplas descobertas pelo astrônomo inglês John Herschel (1729-1871).

Pares especiais do outono
Iota () Cancri é uma estrela dupla laranja e azul que você pode distinguir até com binóculos com aumento de 7x. É uma vista admirável mesmo para o menor telescópio. A conhecida observadora de estrelas duplas Sissy Haas, da Pensilvânia, pensa que o par tem o contraste de cor mais evidente do céu visto por seu refrator de 5 cm. Ela considera Iota melhor que Albireo. A percepção de cor varia entre as pessoas, então assegure-se de checar Iota por si mesmo.

Alaranjado vivo e esmeralda devem ser as melhores cores para descrever a 24 Comae Berenices. Ela permite uma visão excelente com um telescópio de 10 cm a 45x, e está esperando por você entre as muitas luzes pálidas desta constelação rica em galáxias. Você não precisará de um telescópio maior para observar a estrela principal, de magnitude 5, e a secundária, de 6,3.

Chamada de Pulcherrima, "a mais bela", pelo observador russo Wilhelm Struve (1793-1864), Izar (Epsilon [] Boötis) exige magnificação relativamente alta e boas condições para uma distinção clara por telescópios pequenos. Um telescópio de 13 cm a 100x é capaz disso. O de 8 cm a 150x mostra seus discos amarelo-dourado e verde-azulado quase se tocando - uma vista verdadeiramente fascinante!
Xi () Boötes é um par amarelo e roxo-avermelhado que causa surpresa e empolgação a qualquer um que a vê pela primeira vez. De visão absolutamente refinada com um telescópio de 15 cm a 50x, seus tons são bem vistos com telescópios grandes, que muitas vezes saturam as cores das duplas mais brilhantes devido ao excesso de luz. Nestes casos, é bom diminuir a abertura.

Se você gostou de Xi Boötes, Kapa () Herculis aparece como um clone maior dela. É fácil distingui-la com um telescópio de 5 cm a 25x, com as cores amarelo e castanho-avermelhado, e a lateral possivelmente tingida de um tipo de alaranjado. As estrelas se separam por 27" e brilham com magnitude de 5,1 e 6,2.

Antares (Alfa [] Scorpii) é a mais difícil mas a mais espetacular (ao menos quando vista por grandes telescópios) de nossa lista. A estrela maior, vermelho-fogo, é acompanhada de perto por uma parceira que só pode ser descrita como verde-esmeralda. Mas esta cor verde é verdadeira?

O observador e escritor William H. Smyth (1788-1865) observou a estrela companheira ao emergir, antes da principal, de um eclipse da Lua. O tom esverdeado visto por ele, então, não resultou de um efeito de contraste com a estrela principal. Observações similares recentes atribuem uma cor azul à companheira.

Você pode distinguir as estrelas de Antares com um telescópio refrator de 13 cm, a 100x, em noites de boa visibilidade. Vista com um refrator de 33 cm a 190x, esta é possivelmente a estrela dupla mais espetacular do céu!

A aconchegante par laranja e verde-azulado Ras Algethi (Alfa Herculis) remete os observadores a Antares. Um telescópio de 5 cm a 75x distinguirá bem as duas, e elas formam uma vista adorável com um telescópio de 20 cm a 100x. A magnificação necessária para separar Ras Algethi depende do brilho da estrela variável principal.

Omicron () Ophiuchi tende a ser suplantada pelos diversos aglomerados globulares encontrados nesta região, mas não a perca de vista. Essas jóias alaranjada e azul, separadas por apenas 10", são maravilhosas vistas por um telescópio de 8 cm, a 30x.

Já 95 Herculis é preciso ver para acreditar! As cores são exatamente como Smyth descreveu há mais de 150 anos: verde-maçã e vermelho-cereja. Estes tons surpreendentes brilham sutilmente, mas com persistência em todas as aberturas de telescópio, e são melhor vistas com o de 15 cm, a 50x.

A dupla 70 Ophiuchi tem um tipo de contraste inteiramente diferente da maioria das estrelas a que nos referimos - amarelo e vermelho. Alguns observadores dizem ter visto um toque persistente de violeta na estrela companheira, de sexta magnitude. O tom que você vê depende da percepção de cor de seus olhos.

A magnífica Albireo (Beta [] Cygni) tem a responsabilidade de ser "a estrela dupla favorita de todas as pessoas", não por acaso. Suas gloriosas cores alaranjada e azul são inconfundíveis mesmo em um telescópio de 5 cm, a 20x, e podem ser vistas por binóculos 10x50. E essas cores são definitivamente reais.

Se Albireo não for suficiente, Cygnus oferece outra dupla bastante colorida, que também é impressionante por telescópios pequenos - a Omicron (o) Cygni. As cores imitam as de sua vizinha famosa, mas os dois sóis estão muito mais distantes, de forma que o contraste não é tão forte. Também há uma estrela branca-azulada, a 331" de distância, fazendo dessa formação um sistema aparentemente triplo.

A amável dupla amarela e verde pálida Gama Delphini, com uma separação de 9", se distingue com um telescópio de 8 cm a 45x. Com telescópios de 15 cm ou mais, esta é uma das duplas mais refinadas. Também há uma dupla com aparência fantasmagórica escondendo-se no mesmo campo de visão. Chamada de Struve 2725, suas componentes têm magnitudes de 7,6 e 8,4 e se separam por apenas 6", o que contribui para a fascinação da cena.

Delta () Cephei é o protótipo das famosas variáveis cefeidas que os astrônomos usam para medir distâncias no céu. Desta forma, ela é muitas vezes subestimada como atraente estrela dupla. Suas componentes laranja-amarelada e azul são muito bem vistas por um telescópio de 10 cm em aumentos tão baixos quanto 16x.

Adeus Plutão-Mais tem Cientistas Norte Americanos que não Vão Aceitar



Vénus, Marte, Mercúrio e Plutão


Como sabemos, a União Astronômica Internacional (UAI) deu um pontapé em Plutão. O que me espanta é a quantidade de pessoas que se preocuparam com isso. Algumas ficaram deprimidas. Elas cresceram com Plutão e agora ele foi rebaixado a um anão como muitos outros personagens de Disney. Felizmente a UAI esperou até depois de 1997, quando Clyde Tombaugh faleceu. O descobridor do último planeta foi feliz para o túmulo, embora ainda estivesse por aqui quando começamos a entender como realmente era "Pateta" o nono mundo. Gostei da decisão da UAI. Convidado ao Late Show de David Letterman há alguns anos, reafirmei que Plutão não é realmente um planeta. A decisão inicial pró-planeta de uma comissão da UAI em agosto passado teria me derrubado.

A resolução da UAI produziu conseqüências adicionais. Ceres foi promovido de asteróide para planeta anão, só porque é arredondado. Mas a UAI não está enganando ninguém. Ceres continua um asteróide.

Caronte, principal lua de Plutão, foi também um planeta por cerca de uma semana, antes que os astrônomos ridicularizassem essa idéia. Agora ele retornou a apenas uma das 140 estranhas luas do Sistema Solar.

Os critérios iniciais da UAI para um corpo ser considerado planeta incluíam uma cláusula que, em sistemas de dois corpos, o objeto menor candidato a planeta orbitasse ao redor de um ponto fora da superfície do maior.

A rigor, nenhum objeto orbita ao redor de outro. Cada par de objetos executa uma dança em torno do centro de gravidade comum, ponto no espaço em que suas gravidades se equilibram. No par Plutão-Caronte esse ponto encontra-se um pouco fora da superfície de Plutão. À Lua, quatro vezes maior que Caronte, foi negado o status de planeta porque o ponto de equilíbrio entre ela e a Terra fica abaixo da superfície da Terra, 26% do seu raio.

Mas veja só: a Lua está se afastando à velocidade de 4 cm por ano. Assim, algum dia, esse ponto de equilíbrio se deslocará para fora da superfície da Terra. Nesse momento, de acordo com a primeira definição da UAI, ela se tornaria um planeta. Não é de espantar que tenham abandonado essa história. Estava tudo muito complicado.

Ninguém admitia, mas havia um ingrediente oculto nas deliberações. A palavra "planeta" tem um lugar especial em nossos corações porque vivemos num deles. Tacitamente queremos que o nosso mundo integre um clube especial, e isso tem sido verdade até agora. Até jovens estudantes conhecem os nomes dos planetas. Cada planeta é famoso. Assim, de certa forma, a UAI precisou de um critério de filiação que mantivesse os penetras afastados. Qualquer sociedade que inclua um Júpiter e um Saturno, não deveria conceder filiação a qualquer pedaço de lixo gelado menor que a Lua. Isso estragaria a vizinhança.

Houve então a questão da tradição. Plutão quase conseguiu o status de planeta porque tem nos acompanhado por toda vida. Mas o problema é que, se você deixa Plutão entrar, abre as portas para todos aqueles minúsculos e desprezíveis membros do Cinturão de Kuiper. Logo teríamos 15 planetas, depois 40, e eles teriam nomes estranhos, e ninguém se lembraria de todos eles e...

Bem, isso não aconteceu. Mas estou surpreso que a sede de sangue na batalha não tenha inspirado a UAI a atacar outros objetos celestes. Por que parou em Plutão? Por que não cortou todas as designações incomodativas em todo o Universo?

Como as constelações do Cancer (horrível), Virgo (provoca risadinhas) e Musca (uma mosca). Quem decidiria glorificar uma peste? Mantenha Musca e você poderá também vir com um "Virella, o Vírus". Golden Retriever - eis aí uma criatura que merece pertencer aos céus. Antlia, Scutum e outras dezenas de nomes deveriam ter sido abolidos séculos atrás. Enquanto você estiver a fim, renomeie todas as estrelas com seis ou mais sílabas: Zebeneschamali, por exemplo, que significa "garra" embora seja parte de Libra. Balanças não deveriam ter garras, exceto em pesadelos.

E batize mais galáxias. Atualmente só algumas dezenas têm nomes oficiais, enquanto bilhões de outras mais recebem indignas letras e números como de placas de veículos.

A UAI pode manter todo o resto. Todos aqueles termos envolvendo cor são bons. Buraco negro, anã-marrom, gigante-vermelha, flash verde, desvio espectral para o azul, anã-branca. Termos bonitos e cativantes. Os termos referentes a distâncias também são fabulosos: parsec, ano-luz e unidade astronômica. Soam bem.

Na verdade, se se pensa nisso, toda ciência tem uma nomenclatura bastante boa. A astronomia pode estar ao alcance da maioria das pessoas, mas a sua linguagem é maravilhosamente intrigante, e a maioria dos seus corpos celestes soa como deveria: exótica e deslumbrante.

Então - mantendo afastadas novas alterações por astrônomos planetários que odeiam tudo isso - simplesmente nos habituaremos a "planeta anão". Sinto muito, Plutão, mas você deveria ter percebido isso antes.

Antimatéria


Por Bob Berman

Se a antimatéria não existisse alguém teria de criá-la, pois ela é extremamente fascinante. Prevista pelo brilhante físico Paul Dirac em 1928 - e descoberta por Carl D. Anderson, da Caltech, em 1935 -, a antimatéria se parece com a matéria ordinária e atua exatamente como ela.

Mas deixe que ela toque em qualquer coisa: matéria e antimatéria desaparecem numa ex-plosão que libera a máxima energia possível.

É fácil entender, pois a antimatéria é como a matéria comum, exceto que todas as cargas elétricas são invertidas. É como se um demiurgo incompetente de uma outra dimensão acidentalmente tivesse trocado os cabos. No centro dos antiátomos se escondem antiprótons com carga negativa, em vez de positiva. Elétrons positivos - pósitrons - orbitam os antiprótons.

Quando o Universo surgiu, há 13,7 bilhões de anos, quantidades iguais de matéria e antimatéria devem ter sido criadas. Colisões aconteceram o tempo todo naquele ambiente congestionado e turbulento. Quando a poeira assentou, o resultado deveria ter sido um empate cósmico. No entanto, não foi isso que aconteceu.

Por alguma razão tudo terminou com um Universo em que a matéria acabou predominando. Os teóricos ainda se perguntam o que teria acontecido. Evidência recente sugere que a Natureza tem uma leve preferência pela criação da matéria em vez da antimatéria - e que os dois processos não são tão simétricos como se pensava.

Mesmo assim o Universo poderia ter estrelas feitas só de antimatéria. A luz emitida por tais anti-sóis seria idêntica à energia de estrelas comuns. Observando o céu noturno não teríamos meios de saber se uma estrela é feita de matéria ou antimatéria.

Poderia também haver planetas de antimatéria. Talvez haja uma anti-Terra com anti-restaurantes servindo "antipasto". Pode até ser que exista um anti-eu e um anti-você. Diferentemente de você, o anti-você deve dobrar cuidadosamente as suas roupas à noite em vez de jogá-las no chão.

A coisa mais dramática a respeito da antimatéria é o que acontece quando ela encontra a matéria comum. Lembra-se que E = mc2? Escreva o peso (em gramas) de certa porção de matéria e multiplique-o pelo quadrado da velocidade da luz expressa em cm/s: 30 bilhões ao quadrado = 900 quintilhões. Feitas as contas, eis a energia (em ergs) naquela porção de matéria. Cada toco de cigarro é uma superconcentração de energia latente armazenada naquela repugnante forma de matéria. Libere essa energia e você terá com que abastecer sua casa por mil anos.

As bombas H e o núcleo do Sol liberam energia com uma eficiência de apenas 0,7%. Mas quando matéria e antimatéria colidem, suas massas se convertem em energia com 100% de eficiência. E você pode usar qualquer coisa, até lixo.

Mas, como obter antimatéria? Ninguém a está vendendo, nem mesmo no eBay. Ela é produzida em aceleradores de partículas como o do Fermilab, mas não é nada barata. A atual produção global anual é de cerca de 10 bilionésimos de grama. As maiores porções consistem em antiátomos, criados pela primeira vez em 1995.

Também é difícil armazená-la. A antimatéria aniquilaria a parede de qualquer recipiente em que você a guardasse. Se ela fosse resfriada perto do zero absoluto, permaneceria praticamente imóvel. Então se você produzisse somente pósitrons ou antiprótons, a antimatéria poderia levitar num campo magnético.

Um campo magnético viajante, como aquele que faz o trem bala levitar, poderia guiar esse combustível para a câmara de combustão de um foguete onde a antimatéria encontraria a matéria comum.

O confinamento magnético seria o caminho a ser seguido. Mas é preciso certificar-se de que o campo jamais iria vacilar por uma falha no fornecimento de energia ou algum problema técnico. ("Estamos perdendo confinamento!", gritou Scotty. A tripulação sabia que esse não era um pequeno problema na lista de contratempos da Enterprise. "Confinamento perdido" significava que a nave e a tripulação se twransformariam em pura energia.)

Sabemos que a antimatéria existe, pois a aniquilação da matéria com a antimatéria produz fótons com a característica energia de 511 mil elétron-volts. Escombros positrônicos são ejetados violentamente do núcleo da Galáxia, perpendicularmente ao plano da Via Láctea. Embora essas fontes infernais de energia tenham sido descobertas há oito anos pelo observatório espacial Compton de raios gama, as causas ainda continuam um mistério. Explosões de estrelas massivas?
Buracos negros que fabricam antimatéria? Ninguém conhece a origem da antimatéria na Via Láctea.

Algum dia a antimatéria poderá nos propelir para o centro da Galáxia para podermos ver o que acontece por lá. Que a viagem não culmine num anticlímax.

Tapeçaria Cósmica em Órion


NASA/ESA/M.Roberto (STScI/ESA) e Equipe do Telescópio Espacial Hubble

Astrônomos têm assentos privilegiados para observar o nascimento de milhares de estrelas na Nebulosa do Órion (M42), a densa nuvem de gás e poeira a 1.500 anos-luz de distância do Sistema Solar. As mais quentes e massivas estrelas já emergiram de seu casulo celeste. Poderosos ventos estelares e intensa radiação ultravioleta emergem dessas luminárias cósmicas, moldando a intricada estrutura da nebulosa. Enquanto isso, um número incontável de estralas-bebês permanecem presas às suas delicadas estruturas de origem. Mosaico combina imagens feitas pelo Telescópio Hubble ao longo de 105 voltas em torno da Terra e dados coletados pelo telescópio de 2,2 metros de diâmetro do Observatório Austral Europeu, nos Andes Chilenos. O mosaico tem tamanho aparente ao da Lua Cheia.

MIT cria miniexploradores para Marte


Aglomerados de miniobservadores esféricos podem estar prontos para explorar o planeta na próxima década. Eles investigariam os dutos de lava e os vales demasiado íngremes para os jipes espaciais

Um dia, um enxame de miniobservadores poderá deslocar-se pela paisagem marciana- pelo menos se uma pesquisa do Massachusetts Institute of Technology (MIT) estiver no caminho correto.

Steven Dubowsky, diretor do Laboratório Espacial de Robótica do MIT imagina milhares de sondas movidas a pilha, do tamanho de bolas de beisebol, explorando o solo do planeta. Cada sonda pesaria cerca de 113 gramas, carregaria câmeras e outros sensores e poderia comunicar-se com as outras via rede local. As sondas cobririam aproximadamente 130 Km quadrados do terreno marciano em 30 dias.

Seriam necessárias perto de mil minissondas para igualar o peso do jipe Spirit ou Opportunity, da Nasa. Dubowsky diz que tudo está pronto para iniciar os testes terrestres dos protótipos e que em 10 anos os miniexploradores poderiam ser enviados a Marte.

Por Laura Layton

A juventude de Trífida


Trífida é iluminada por estrelas ainda em formação

A nebulosa Trífida, M20, em Sagitário, é uma das mais jovens já identificadas, a 7.600 anos-luz do Sistema Solar. Essa nebulosa de emissão recebeu este nome do astrônomo inglês John Herschel (1792-1871) devido aos seus três lóbulos que pareciam mais difusos nos telescópios da época. Uma nebulosa de emissão é uma estrutura formada por gases e poeira interestelares iluminada por estrelas em formação. A Nebulosa Trífida, ou NGC 6514, formou-se há apenas 100 mil anos.

Quando Chegou em Saturno-No ano de 2004


Titã, mais do que qualquer outro corpo do Sistema Solar, merece ser descrito como um mundo misterioso


A descida da sonda Huygens através da espessa atmosfera de Titã, a maior lua de Saturno, será um dos destaques da missão Cassini-Huygens.

Na manhã de 15 de outubro de 1997, na borda de um igarapé infestado de jacarés perto de cabo Canaveral, na Flórida, eu assistia, com milhares de outras pessoas, ao surgimento de uma pequena chama embaixo de um foguete, numa plataforma de lançamento localizada a quilômetros de distância. A mais sofisticada nave espacial não-tripulada de todos os tempos, composta pelo orbitador Cassini e pela sonda Huygens, estava posicionada no topo do veículo lançador, e sete anos de viagens interplanetárias vinham pela frente. Comecei a me envolver no projeto dessa missão quando ainda era aluno de pós-graduação e tive de esperar até a metade da minha carreira para ver seu ponto alto: a primeira exploração prolongada do sistema saturniano.

Espera-se que, neste mês, a nave Cassini-Huygens entre em órbita do segundo maior planeta do Sistema Solar. Os pesquisadores aguardam ansiosamente por esse dia desde que as missões Pioneer 11 e Voyager 1 e 2 aguçaram o seu interesse por Saturno há mais de 20 anos. Embora o planeta seja menor do que Júpiter e sua superfície tenha aparência muito menos violenta, Saturno pode conter pistas vitais para entender a evolução de longo prazo de todos os planetas gigantes gasosos. O séquito de luas de Saturno inclui 30 pequenos satélites gelados e uma lua do tamanho de um planeta, Titã, que possui atmosfera densa e fascina os cientistas, porque poderia revelar como a vida surgiu na Terra. Os pesquisadores também querem descobrir como se formaram os anéis de Saturno e como o intenso campo magnético do planeta afeta suas luas geladas e a atmosfera superior de Titã.

Os cientistas esperam que a Cassini-Huygens repita o sucesso da nave Galileo, que revolucionou nosso conhecimento sobre Júpiter e suas luas durante seus oito anos em órbita. Contudo, há diferenças fundamentais entre essas duas missões. Enquanto a Galileo lançou uma sonda para investigar a atmosfera de Júpiter, o orbitador Cassini vai lançar a sonda Huygens em Titã, e não em Saturno. Ao contrário da Galileo, a Cassini-Huygens é o resultado de um verdadeiro esforço internacional. Embora a Nasa tenha construído o orbitador Cassini e seja a gerenciadora da missão, a Agência Espacial Européia (ESA) desenvolveu a sonda Huygens, e as equipes responsáveis por todos os instrumentos da nave são formadas por europeus e americanos.

Pelo fato de Saturno estar quase duas vezes mais afastado do Sol do que Júpiter - 1,4 bilhão de km contra 780 milhões de km - ele sempre pareceu mais misterioso. Se o compararmos a Júpiter, Saturno tem menos cinturões visíveis e há menos zonas de turbulência de ventos na atmosfera. A magnetosfera de Saturno - a região dominada pelo campo magnético do planeta - é muito mais calma do que a de Júpiter, o que produz um ruído na faixa de rádio, facilmente detectado na Terra. Os astrônomos descobriram em 1943 uma atmosfera em torno de Titã, mas muito pouco se soube sobre ela ou sobre as outras luas de Saturno até a chegada da era espacial. Para os astrônomos presos à Terra, Saturno era um contraponto sereno e misterioso à violência de Júpiter, pairando num reino frígido e distante.

A primeira nave espacial a visitar Saturno, a Pioneer 11, era uma sonda relativamente simples que sobrevoou Júpiter em 1974 e passou correndo por Saturno em 1979. Os instrumentos da Pioneer 11 detectaram um anel de Saturno (o anel F) até então desconhecido, mediram remotamente as propriedades da atmosfera do gigante gasoso e verificaram a intensidade e a geometria do campo magnético do planeta. As Voyagers 1 e 2, que passaram perto do sistema saturniano em 1980 e 1981, possuíam sistemas de imageamento e espectrômetros mais sensíveis. A Voyager 2 descobriu estruturas inéditas nos anéis de Saturno - trilhas radiais escuras que atravessam os anéis como os raios de uma roda - que aparentemente resultavam da levitação eletromagnética da poeira acima do plano do anel. Este fenômeno e outras medições indicaram que os anéis eram compostos por objetos cujas dimensões variavam desde pedras até partículas de poeira.

As Voyagers também obtiveram imagens parciais da superfície de vários satélites gelados de Saturno, que mostravam diferentes graus de derretimento e recapeamento. Mas foi Titã, sem dúvida nenhuma, que forneceu as descobertas mais interessantes. A Voyager 1 passou a uma distância de aproximadamente 4 mil km de Titã, a segunda maior lua do Sistema Solar (depois de Ganimede, de Júpiter). A névoa espessa e alaranjada de Titã impediu que as câmeras da nave pudessem observar quaisquer características da sua superfície, mas outros instrumentos mediram a temperatura e a pressão atmosféricas e determinaram que o nitrogênio é o gás mais abundante, seguido pelo metano.

A dinâmica da atmosfera de Titã é estranhamente semelhante à da Terra. O nitrogênio domina nas duas atmosferas, mas em Titã o metano desempenha o papel meteorológico da água no nosso planeta. Também está presente nas reações químicas orgânicas que começam na atmosfera superior de Titã, com o rompimento de suas moléculas pela radiação ultravioleta do Sol. Os pesquisadores acreditam que esse ciclo atmosférico possa incluir uma chuva de hidrocarbonetos líquidos, que poderia se acumular em lagos ou oceanos. A temperatura da superfície - cerca de 94 kelvins, ou -179oC - é muito baixa para a ocorrência de água líquida, mas as condições são ideais para a formação de lagoas de hidrocarbonetos líquidos. A vida como a conhecemos provavelmente não poderia evoluir em Titã, mas uma análise dos ciclos químicos orgânicos nessa lua poderia fornecer pistas sobre como a vida surgiu no início da história da Terra.
Os resultados da Voyager encorajaram os pesquisadores a desenvolver um orbitador que pudesse fazer uma investigação completa do sistema saturniano. No início dos anos 1980, no entanto, os recursos para a exploração planetária eram limitados, por isso, membros da Nasa e da ESA começaram a pensar em se unir. Em 1982 e 1983, grupos de cientistas europeus e americanos começaram os planos de uma exploração cooperativa futura do Sistema Solar, e a missão ao sistema saturniano era a primeira da lista.

Uma Viagem Incrível

EMBORA ESTIVESSE CLARO QUE UM COMPONENTE da missão seria um orbitador projetado para investigar a atmosfera, os anéis, as luas e a magnetosfera de Saturno, o debate se concentrou na escolha do local para o lançamento da sonda atmosférica: Saturno ou Titã, ou ambos. Os cientistas que projetaram o orbitador finalmente escolheram Titã por causa das descobertas intrigantes feitas pela Voyager na sua atmosfera. Por volta de 1985, a ESA apareceu com novos projetos de uma sonda capaz de navegar através do ambiente atmosférico denso mas de baixa gravidade de Titã. Os representantes da ESA batizaram a sonda com o nome de Huygens em homenagem a Christiaan Huygens, astrônomo holandês do século 17 que descobriu Titã. O orbitador, construído pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa, recebeu o nome do astrônomo franco-italiano do mesmo século, Jean Dominique Cassini, que descobriu quatro das luas de Saturno e uma grande divisão entre seus anéis. O custo total para o desenvolvimento da missão - cerca de US$ 3 bilhões, dos quais os europeus contribuíram com cerca de 25% - é alto se comparado com o custo da maioria das missões planetárias, mas comparável ao de outros grandes projetos, como o telescópio espacial Hubble.

O Cassini e a Huygens formam juntos uma das maiores e mais pesadas naves espaciais já construídas, com 12 instrumentos científicos no orbitador e seis na sonda (ver box da página 78). Com a carga completa de combustível, a Cassini-Huygens pesava quase 6 toneladas e tinha 6,8 metros de altura. Como a Cassini tinha de viajar quase duas vezes a distância percorrida pela Galileo, a nave precisava de sistemas de comunicação e de antenas muito maiores e mais robustas (fornecidas pela Agência Espacial Italiana), mais combustível para as manobras e mais energia elétrica. Como a Galileo, a Cassini é propelida pelo decaimento natural de plutônio radioativo, que gera calor, por sua vez convertido em eletricidade.

Embora a Cassini-Huygens tenha sido lançada pelo mais poderoso foguete não-tripulado disponível - o Titã 4 da Força Aérea Americana, com um estágio superior Centauro - a nave espacial era pesada demais para ser enviada diretamente a Saturno. Seguindo a mesma diretriz de missões anteriores, a Cassini atingiu a velocidade necessária através de uma seqüência de impulsos gravitacionais. Entre 1998 e 2000, ela passou perto de Vênus (duas vezes), da Terra e de Júpiter. Durante a sua passagem por Júpiter em dezembro de 2000, a nave examinou as fronteiras mais externas da magnetosfera do planeta gigante enquanto a Galileo fazia observações de seu ponto de aproveitamento orbital mais próximo - a primeira vez em que foram feitas observações simultâneas. A Cassini produziu um notável conjunto de imagens, mostrando a atmosfera turbulenta do planeta com um detalhamento extraordinário.

A magnetosfera de Júpiter é assimétrica, com uma abundância inesperada de íons e de elétrons que escapam de um de seus lados.Essa longa viagem interplanetária trouxe outro benefício: tempo para a Nasa e a ESA modificarem a missão caso houvesse algum imprevisto. Em 2000, os controladores detectaram uma falha no projeto ao testar o sistema de comunicação, que permitiria que a nave recebesse os dados científicos da sonda Huygens na sua descida à superfície de Titã. (Os dados teriam de ser reenviados para a Terra.) O receptor de rádio da Cassini não conseguiu recuperar os dados durante um teste realizado para simular o desvio Doppler na freqüência do sinal, que deveria ocorrer durante a descida. Depois de estudar o problema durante meses, as agências espaciais apresentaram uma solução: alterar a trajetória planejada para diminuir a velocidade relativa entre o orbitador e a sonda, o que reduziria ao mínimo o desvio Doppler.

O primeiro encontro próximo da Cassini com o sistema saturniano ocorreu no dia 11 do mês passado, durante o seu sobrevôo de Febe, um satélite de Saturno que percorre uma órbita elíptica irregular a cerca de 13 milhões de km do planeta. A Cassini passou a 2 mil km dessa lua de 220 km de diâmetro. Esse satélite intriga os cientistas porque pode ser um remanescente da matéria primordial que formou os núcleos rochosos dos planetas externos há mais de 4,5 bilhões de anos. Três semanas mais tarde, no dia 1o deste mês, a Cassini vai se aproximar de Saturno vindo da parte de baixo do plano dos anéis e atravessar o extenso vão entre os anéis F e G. Para diminuir a velocidade o suficiente para que entre em órbita, a Cassini vai acionar seus motores durante 97 minutos na direção oposta à sua trajetória. Enquanto os motores estiverem acionados, o orbitador vai fazer a sua aproximação máxima de Saturno, chegando a 18 mil km do gigante-gasoso. Se tudo correr como previsto, essa manobra colocará a Cassini em uma órbita bem elíptica, que depois será ajustada por meio de acionamentos dos motores.

Descendo na Lua

DURANTE OS PRÓXIMOS SEIS MESES, a Cassini vai sobrevoar Titã duas vezes, para estudar a atmosfera e a superfície da lua gigante e preparar a missão da Huygens. Em 25 de dezembro, a Cassini vai liberar a sonda, que deverá pousar em Titã em 22 dias. Em 14 de janeiro de 2005, a Huygens, alimentada por baterias, vai entrar na atmosfera de Titã, que se estende até 1 mil km acima de sua superfície, cerca de dez vezes maior do que a atmosfera da Terra. Uma blindagem em forma de pires protegerá a nave das altas temperaturas durante a entrada na atmosfera. A cerca de 170 km da superfície, a sonda acionará um pára-quedas para tornar a descida mais lenta e estável. Enquanto a Huygens estiver flutuando na névoa alaranjada que envolve Titã, o cromatógrafo de gás e espectrômetro de massa (GCMS) da sonda analisarão a composição da atmosfera de Titã. Outro instrumento vai coletar e vaporizar partículas sólidas de modo que elas também possam ser identificadas pelo GCMS. Ao mesmo tempo, o imageador de descida e radiômetro espectral (DISR) fotografará as nuvens de metano para determinar suas formas e tamanhos.

Quando a sonda estiver a uma altitude de aproximadamente 50 km, o DISR começará a tirar fotos panorâmicas da paisagem abaixo. Nas últimas centenas de metros da descida, um holofote de luz branca iluminará a superfície - que normalmente tem a cor avermelhada do barro, porque a atmosfera absorve as freqüências azuis da radiação solar - permitindo que o DISR faça uma análise espectral da composição dos elementos da superfície. Ao longo da descida, os desvios na freqüência dos sinais de rádio da sonda serão monitorados para determinar a intensidade dos ventos de Titã, e o Instrumento de Estrutura Atmosférica da Huygens (Hasi) medirá a temperatura, a pressão e os campos elétricos que poderão indicar a presença de relâmpagos. A descida completa deverá durar de duas horas e meia a três horas.

Embora a meta principal da sonda Huygens seja a investigação da atmosfera de Titã e nenhuma medida tenha sido tomada para garantir a sua sobrevivência no pouso (o que teria muitos custos adicionais), os cientistas estão muito interessados na natureza da superfície. Estaria coberta de hidrocarbonetos líquidos? Haveria evidências de evolução da atividade geológica ou da química orgânica? Ou Titã é simplesmente um satélite gelado, crivado de crateras? Para ajudar nas respostas, a carga útil da sonda inclui um pacote científico para a superfície (SSP) que vai emitir ondas sonoras no estágio final da descida para avaliar a rugosidade da superfície. O Hasi fará medições semelhantes usando sinais de radar.
Na hora do impacto, que deverá acontecer à velocidade relativamente suave de poucos metros por segundo, os acelerômetros da sonda vão transmitir dados a uma taxa bastante alta através do SSP, para determinar se a superfície é sólida, coberta de neve ou líquida. Se a sonda sobreviver ao pouso, poderão ser transmitidos de 3 a 30 minutos adicionais de dados para o orbitador antes que ele desapareça no horizonte da lua. Se a Huygens pousar em um lago ou em um oceano de hidrocarbonetos, o SSP poderá medir a temperatura, a densidade e outras propriedades do líquido. Os sensores também poderão medir a velocidade de som através do líquido e talvez determinar sua profundidade. Enquanto isso, o DISR captará imagens, e o GCMS tentará analisar os hidrocarbonetos. A sonda Huygens foi projetada para flutuar em hidrocarbonetos líquidos, embora esses compostos químicos sejam significativamente menos densos que a água.

Um Passeio de Quatro Anos

DEPOIS DA DESCIDA DA HUYGENS, a Cassini vai continuar a estudar Titã durante a sua jornada de quatro anos pelo sistema saturniano. Durante esse período, a nave orbitará Saturno 76 vezes, e na maioria das voltas deverão ocorrer outros sobrevôos de Titã. A cada encontro, a órbita da Cassini vai ser reformulada para permitir que a nave obtenha fotos próximas dos outros satélites de Saturno e de seus anéis e examine diferentes partes de sua magnetosfera. Ao contrário da Galileo ou da Voyager, a Cassini não possui plataformas móveis para direcionar seus instrumentos. Para reduzir os custos de desenvolvimento, eles foram fixados ao corpo cilíndrico da nave. Assim, os cientistas da missão precisam planejar cuidadosamente suas observações, porque os instrumentos podem não estar todos voltados para o mesmo alvo simultaneamente.

As pesquisas a serem feitas no sistema saturniano são tão vastas que só foi possível apresentar um resumo do seu potencial. Meus interesses estão centrados em Titã. Além de descobrir se houve evolução dos compostos químicos orgânicos complexos na superfície da lua, os pesquisadores têm uma batelada de perguntas sobre esse mundo. Na Terra, a água se encarrega de dar novas formas à superfície do planeta e das trocas de energia e massa entre a superfície e a atmosfera; em Titã, o metano exerce esse papel. Mas, como ele está sendo continuamente consumido por reações fotoquímicas produzidas pela radiação ultravioleta do Sol, deve ser reposto de alguma forma a partir da superfície ou do interior de Titã, ou talvez pelo impacto de cometas. A abundância atual de metano em Titã, de acordo com as medidas feitas pela Voyager, parece estar num ponto crítico - apenas o suficiente para permitir a formação de nuvens e de chuva de metano. Mas a concentração não é suficientemente alta para garantir a presença de metano líquido puro na superfície; as gotas de "chuva" evaporariam antes de atingir o solo. Se houver mares, provavelmente devem ser constituídos de etano líquido, um produto das reações fotoquímicas que ocorrem na atmosfera de Titã, combinado com metano dissolvido.

Entender de onde vem o metano e para onde vão os produtos de sua fotoquímica são duas das questões básicas que a missão Cassini-Huygens pode responder. Será que o metano e o etano estão misturados em lagos ou mares de hidrocarbonetos na superfície de Titã? Dados recentes obtidos com o radiotelescópio de Arecibo (Porto Rico) parecem indicar que sim. Se a nave não encontrar evidências de lagos ou mares, então talvez Titã tenha deixado de formar metano e etano ao longo de sua história. Se esse for o caso, a composição e a quantidade atual da atmosfera da lua de Saturno - mantida pelo aquecimento do efeito estufa do metano - podem ser o resultado do impacto recente de um cometa ou de uma grande perturbação ocorrida no interior de Titã. Finalmente, queremos saber onde o metano e o nitrogênio de Titã se originaram e porque essa é a única lua do Sistema Solar que possui atmosfera densa.

As câmeras, os espectrômetros e o radar do orbitador, que poderão "ver" através da atmosfera espessa de Titã, estão encarregados de procurar mares de hidrocarbonetos. Outros instrumentos examinarão as interações da atmosfera de Titã com as partículas carregadas da magnetosfera de Saturno. Os sinais de rádio que atravessam a atmosfera da lua deverão mostrar a variação da temperatura com a latitude e com a altitude. A combinação desses resultados com as imagens do orbitador Cassini e da sonda Huygens deverá ajudar a determinar a quantidade da precipitação de metano. A sonda fornecerá leituras diretas de temperatura e pressão junto com as imagens das nuvens de metano e nitrogênio de Titã. Além disso, as medidas de dois parâmetros-chave da atmosfera - a abundância de metano contendo deutério e a razão entre nitrogênio e os gases nobres argônio e criptônio - poderiam indicar as possíveis fontes de metano e nitrogênio da lua.

Assim como acontece com qualquer missão para um mundo novo e estranho - e Titã, mais do que qualquer outro corpo do Sistema Solar, merece ser descrito como um mundo misterioso -, uma única exploração não é suficiente para responder a todas as perguntas. Titã pode se mostrar tão interessante que os cientistas poderiam propor missões subseqüentes para enviar balões, aeronaves e veículos de pouso para o interior de sua atmosfera densa. A longa jornada de descobertas iniciada pela missão Cassini-Huygens não deve acabar tão cedo.




Máscaras do tempo

Mecanismos pelos quais o cérebro percebe a passagem do tempo evocam princípios da física enunciados na teoria da relatividade e na mecânica quântica

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Ao longo da história, questões acerca da origem e do significado da vida, da criação do Universo e livre-arbítrio têm roubado o sono de filósofos e cientistas. A indagação sobre a natureza do tempo, entretanto, parece ser o questionamento mais cotidiano e familiar. Considerado em suas diferentes acepções, o tempo está em toda parte: no calendário da parede, nos diversos relógios que pautam nossa vida, no nascer e no pôr-do-sol, nas fases da lua, nas estações do ano, bem como em nós mesmos - quando sentimos fome ou sono durante o dia ou testemunhamos no espelho as marcas da passagem dos anos. Antiga preocupação filosófica, mais recentemente o tempo passou a ocupar também a mente dos cientistas, interessados em medi-lo e compreendê-lo. Para enxergarmos com clareza suas múltiplas faces, é necessário encarar o tempo igualmente sob múltiplos ângulos. O desafio depende de um esforço conjunto do qual devem participar filósofos, físicos e neurocientistas.

Segundo resultados teóricos e experimentais da física moderna, a velocidade da luz (e de qualquer onda eletromagnética) no vácuo é uma constante, sendo também a velocidade limite que não pode ser superada pela propagação de qualquer outro sinal. Quando admiramos o céu em noite estrelada, vemos algo que jamais existiu exatamente daquela forma, porque cada estrela encontra-se mais perto ou mais longe da Terra, portanto a luz de cada uma delas percorre uma determinada distância em um tempo distinto. A luz das mais próximas viaja alguns poucos anos, enquanto a das mais distantes leva bilhões de anos para atingir nossas retinas. Muitas estrelas que vemos hoje já não existem - explodiram e desapareceram há milhares ou milhões de anos.

Fábrica de Ilusões
Em uma escala de tempo muito menor, impulsos nervosos produzidos pelos estímulos que nos rodeiam - e que vão se transformar em sons, imagens, cheiros - também apresentam velocidade finita de propagação, bem como diferentes tempos de processamento neural. Olhar, ouvir, cheirar e sentir o mundo a nossa volta assemelha-se, portanto, a olhar um céu estrelado: as sensações chegam ao cérebro em momentos distintos, mesmo que tenham partido de um mesmo objeto no mesmo instante. Com alguma prática, o cérebro torna-se hábil em juntar estímulos assíncronos para fazê-los parecer simultâneos. Assim percebemos - ilusoriamente - como síncronos a imagem de lábios que se movem e o som da voz de quem fala.

A ilusão de uma consciência instantânea e simultânea aos estímulos sensoriais que a evocam foi denominada "presente especioso" pelo psicólogo e filósofo americano William James (1842-1910). James considerava o presente ilusório não apenas pelo conteúdo temporal da consciência surgir com atraso em relação ao mundo, ou por dar coerência temporal a uma atividade neural inevitavelmente assíncrona. Ele percebia o presente como uma sensação estendida no tempo, possivelmente exigindo, de um lado, a reevocação de um passado recente guardado na memória de curtíssimo prazo e, de outro, a expectativa de um futuro iminente.

A finitude, tanto da velocidade da luz quanto da propagação da informação no sistema nervoso, conduz a um segundo paralelo entre a física e a neurociência do tempo: a relatividade da simultaneidade.
Segundo a teoria da relatividade proposta por Albert Einstein, se dois eventos A e B (por exemplo, o piscar de duas lâmpadas) são vistos por alguém como simultâneos, um segundo observador, em movimento retilíneo uniforme em relação ao primeiro, poderá vê-los como não simultâneos: a lâmpada A piscando antes da B se o observador estiver se deslocando em um sentido, ou o contrário quando ele se mover na direção oposta. Como ambos os observadores são totalmente equivalentes, já que não existe um "éter" preenchendo o espaço ou algo especial que torne absoluto algum local dele, as duas observações, embora contraditórias, são legítimas e também equivalentes.

Da mesma forma, resultados obtidos em nosso laboratório na Universidade de São Paulo (USP) e por outros pesquisadores demonstram consistentemente que dois estímulos simultâneos - visuais, auditivos ou tácteis - poderão ser ou não percebidos simultaneamente dependendo de vários fatores psicofísicos, entre eles o foco de atenção. Em um típico experimento de julgamento de ordem temporal (JOT), um voluntário senta-se à frente do monitor do computador e fixa o olhar em um ponto demarcado da tela, onde será apresentada uma rápida sucessão entre dois estímulos visuais separados por certa distância. Sua tarefa é relatar qual estímulo foi percebido primeiro. Se prestar atenção ao local onde um dos estímulos será apresentado (mesmo que não dirija o olhar àquele local), as chances de que ele o perceba antes do outro estímulo são muito maiores, mesmo que ambos sejam simultâneos. Nesse caso, a alocação da atenção a um ou outro estímulo teria papel equivalente à mudança do referencial inercial do qual se faz a observação da ordem dos eventos - tal como enunciado pela teoria da relatividade.

Não apenas a ordem e a simultaneidade de dois eventos podem ser relativas para a física e as neurociências, distâncias espaciais e intervalos temporais também são. Segundo a teoria da relatividade, o comprimento de um objeto ou a duração de um evento serão relativos ao referencial inercial em que se encontra o observador. Se ele estiver em movimento em relação ao objeto, seu comprimento será menor se comparado ao mesmo objeto medido por um observador estacionário. O fator de contração é dado pelas equações de transformação de Lorentz . Contração semelhante ocorre quando um observador, cujo referencial inercial está em movimento em relação a um evento, mede a duração deste e compara o resultado com o do observador estacionário.

Experimentos psicofísicos semelhantes ao JOT mostram que a percepção de duração é relativa também ao estado do observador. Fisiologicamente, a incerteza de um julgamento temporal aumenta com a duração do intervalo julgado. Esse resultado, denominado propriedade escalar da percepção de tempo, parece decorrer de um fenômeno psicofísico mais geral, conhecido como lei de Weber (proposto por Ernst Weber, em 1831), segundo o qual para percebermos que um dado estímulo sensorial sofreu variação, o acréscimo (ou decréscimo) mínimo necessário deve ser proporcional à magnitude inicial do estímulo original. Isso talvez ajude a entender por que o tempo parece passar cada vez mais depressa à medida que envelhecemos.

Todos nós também já experimentamos a sensação de o tempo "voar", quando estamos em lugares ou situações agradáveis, ou de se "arrastar", nos momentos em que esperamos com ansiedade algo acontecer. Novamente, parece ser a atenção que prestamos à sucessão de eventos em curso o fator determinante de nossa experiência temporal. Vários estudos demonstram que a duração de um estímulo sensorial, tal como percebida por um observador, é fortemente influenciada pela atenção que ele dispensa ao estímulo.

A percepção temporal pode ser alterada também pela ação de drogas ou doenças que provavelmente modificam circuitos neurais cuja atividade determina nossa capacidade de julgar a duração de um intervalo temporal ou a ordem de dois eventos. A doença de Parkinson, por exemplo, caracteriza-se pela disfunção em certas via neurais que utilizam dopamina como neurotransmissor. Os pacientes manifestam comprometimento da organização temporal de ações motoras e nítido prejuízo no desempenho de tarefas que requerem exclusivamente a percepção de intervalos de tempo. Resultados de nosso laboratório mostram que pacientes com Parkinson exibem significativa redução da precisão no julgamento da ordem temporal de dois eventos visuais, quando comparados a voluntários saudáveis da mesma idade.

Podemos novamente estabelecer um paralelo entre a mudança de referencial em que medidas de intervalos temporais são realizadas e a modificação na atividade de circuitos neurais responsáveis pela codificação do tempo, seja pela modulação fisiológica exercida pela atenção, seja pela interferência de fármacos ou por doenças. Em ambos os casos, o intervalo temporal medido fisicamente ou percebido fisiologicamente é relativo ao referencial em que se situa o observador.

Setas do Tempo
Podemos dizer que, em essência, somos as nossas memórias. Aquilo que declaramos e contamos compõe a chamada memória declarativa, da qual fazem parte fatos sobre o mundo e sobre nossas próprias experiências.

Estima-se que mais da metade das conversações adultas se refiram a eventos passados ou futuros, e essa habilidade de "viajar no tempo", acreditam muitos neurocientistas, é exclusiva do ser humano. É possível que seu aparecimento tenha sido um passo decisivo no processo evolutivo da espécie. Viajando no tempo, entre memórias e projetos, podemos reavaliar experiências passadas, com suas possíveis causas, e ponderar cenários futuros, com suas eventuais conseqüências, o que aumenta a probabilidade de optarmos por decisões e ações mais adaptativas.

Entretanto, existe nítida assimetria entre a memória de um evento passado, cristalizado e único em sua realidade, e a expectativa de um evento futuro, aberto e múltiplo em suas potencialidades.

Em meados do século XX, o matemático austríaco Kurt Gödel obteve uma solução para as equações do campo gravitacional propostas por Einstein na teoria da relatividade geral. Segundo ele, seria possível, sob certas condições, a existência de órbitas fechadas ao longo do espaço-tempo quadridimensional, o que significa que um objeto, em uma viagem ao longo dessa trajetória, voltaria no tempo. Tais resultados trazem à tona o relevante papel desempenhado pelo conceito de causalidade na ciência.

Esse aspecto se torna mais claro com o exemplo do astronauta que, viajando ao longo de uma alça fechada do espaço-tempo, retorna ao passado e, por descuido, provoca um acidente que mata a própria mãe, ainda jovem, antes mesmo de ter sido gerado por ela. Embora muito próximos da ficção científica, tais argumentos baseiam-se em resultados físicos rigorosamente formulados.

Para David Hume, filósofo escocês do século XVIII, a crença na relação causal entre dois eventos decorre apenas do fato de nos habituarmos a vê-los numa dada ordem temporal. Daí viria a sólida, porém ilusória, idéia de que toda conseqüência é precedida de uma causa. No século XX, Hans Reichenbach teceu o conceito de "cadeias causais" para ordenar eventos no tempo. Seguidos em determinado sentido, os eventos ordenam-se de acordo com um princípio de "causalidade"; no sentido oposto, ordenam-se segundo uma "finalidade". A definição de um sentido do tempo (a chamada seta do tempo) ou a escolha da causalidade em detrimento da finalidade é, na visão do filósofo da ciência alemão, uma conseqüência da segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia (ou, intuitivamente, o grau de desordem) de um sistema isolado tende a aumentar. O aumento da entropia definiria, portanto, o sentido da seta do tempo.

Quando assistimos a um filme em que cacos de vidro espalhados no chão se aproximam uns dos outros e finalmente se juntam, sabemos imediatamente que ele está sendo projetado de trás para frente. Do ponto de vista termodinâmico, a desordem (entropia) do copo aumenta quando ele se quebra, espalhando cacos pelo chão. O aumento da entropia seria uma indicação segura da direção do tempo, que jamais retrocederia pelas mesmas razões pelas quais a entropia não poderia diminuir. Há, no entanto, problemas sutis nesse raciocínio, detectados pela primeira vez no final do século XIX pelo físico austríaco Ludwig Boltzmann.

Em minuciosa análise termodinâmica, Boltzmann notou que, partindo de um instante no tempo, a entropia de um sistema deve aumentar tanto em direção ao futuro quanto em direção ao passado. Ou seja, a seta do tempo teria duas pontas. Para observarmos hoje o aumento da entropia, como prescrito pela segunda lei da termodinâmica, ela precisaria necessariamente ser menor no passado remoto. Logo, o problema da seta do tempo, na física, parece implicar considerações cosmológicas, remontando a condições termodinâmicas que caracterizaram a origem do Universo. Sob o prisma das neurociências, a assimetria entre eventos já registrados e aqueles ainda por serem gravados em nossa memória parece oferecer, ainda que sem rigor matemático, uma distinção satisfatória entre passado e futuro (e qual deles deve acontecer primeiro).

O ato de observar e medir um evento passou a fazer parte da física com o advento da mecânica quântica, segundo a qual observador e observado acoplam-se, indissociavelmente, na mensuração de um dado estado físico (descrito por uma função de onda). Muitos filósofos e físicos acreditam que o tempo perceptivo registrado por um observador possa, portanto, ter papel relevante na determinação da seta do tempo.

O físico britânico Paul Davies acredita que o fluxo do tempo é resultado de um processo subjetivo, a ser explicado pelas neurociências e não pela física. Pelo menos duas interessantes conexões existem entre os objetos de estudo das duas disciplinas. A primeira é aquela, já mencionada, que vincula um observador consciente ao fenômeno por ele observado. É o ato da observação que transforma as probabilidades descritas pela função de onda em um valor ou estado físico definido e único. Nas palavras de John Wheeler, importante físico americano do século XX: "nenhum fenômeno elementar é um fenômeno até que ele seja um fenômeno observado ou registrado." A segunda conexão entre física e neurociências é a semelhança matemática e conceitual existente entre a definição de entropia, proposta por Boltzmann, e a definição de informação, que o matemático americano Claude Shannon apresentou em meados do século XX. A entropia seria uma medida de nossa ignorância sobre um sistema, sendo a aquisição de informação sobre ele o equivalente a uma redução de sua entropia (negentropia). O atrativo dessa analogia é que, enquanto entropia é um clássico ingrediente de formulações termodinâmicas, informação é a matéria prima, por excelência, da atividade neural.

Percepção do Tempo
Pouco depois do surgimento da teoria da relatividade, o professor de matemática de Einstein, Hermann Minkowski, propôs uma formalização em que tempo e espaço passam a fazer parte de uma única estrutura geométrica. Formada pela fusão de três dimensões espaciais e uma temporal, essa estrutura é conhecida desde então como espaço-tempo quadridimensional. Embora mantenha suas peculiaridades, espaço e tempo devem, de acordo com a relatividade, ser considerados em conjunto, oferecendo um arcabouço único para a descrição dos eventos físicos.

Nossas percepções de espaço e tempo também não existem de forma independente, e tarefas perceptivas que exigem julgamento espaço-temporal possuem longa história nas neurociências. Em 1796, o astrônomo real do observatório de Greenwich, Reino Unido, despediu seu assistente em razão das constantes discrepâncias, da ordem de vários décimos de segundo, na observação do trânsito estelar. As observações exigiam o julgamento, em relação a um ponto de referência no observatório, da localização de uma estrela em um exato instante de tempo marcado pelo tique-taque audível de um relógio. A precisão dessas observações era crítica para as medidas astronômicas, o que levou o problema para os laboratórios sob a forma de procedimentos que ficaram conhecidos como experimentos de complicação, idealizados pelo pai da psicologia fisiológica, Wilhelm Wundt. Tais experimentos implicavam a comparação simultânea de estímulos em movimento contínuo e estímulos de apresentação súbita.

Reportar a localização de um dado objeto em movimento no exato instante em que um outro evento ocorre é, genuinamente, uma tarefa espaço-temporal. Não só um julgamento espacial deve ser realizado simultaneamente a um julgamento temporal, as percepções de espaço e tempo podem - e talvez devam - compartilhar circuitos neurais que são superpostos quanto a esse processamento.

Mais recentemente, o interesse em experimentos de complicação foi reavivado pela descoberta de uma ilusão visual simples, porém ainda muito controversa: o efeito flash-lag. Um objeto em movimento é percebido como se estivesse à frente de sua real posição no instante em que um evento, que ocorre subitamente, é utilizado como referencial no tempo.

Muito se tem debatido sobre as origens neurofisiológicas desse fenômeno, mas um aspecto que demonstramos com alguma segurança é sua modulação por fatores atencionais: a magnitude do efeito flash-lag aumenta ou diminui à medida que prestamos menos ou mais atenção aos estímulos em questão (o que pode parcialmente explicar a tendência dos árbitros auxiliares, em partidas de futebol, de indicar impedimentos inexistentes). A modulação atencional de uma ilusão que implica a percepção de tempo e espaço sugere, mais uma vez, que a atenção entra em cena como uma espécie de "mudança de referencial", no qual eventos espaço-temporais tomam parte.

Uma das razões pelas quais as percepções de tempo e espaço talvez se fundem em uma mesma estrutura espaço-temporal é que a determinação subjetiva de tempo possa depender mais de "como" é representada pelo sistema nervoso, e menos de "quando". Steven Hillyard, da Universidade da Califórnia, mostrou recentemente que a modulação atencional da percepção de ordem temporal, produzida por dois estímulos sonoros, era codificada por variações nas amplitudes de potenciais elétricos observados nos respectivos circuitos neurais envolvidos, e não por suas latências ou qualquer outra variável temporal. Portanto, espaço e tempo não são traduzidos necessária e respectivamente por códigos espaciais e temporais, mas ambos poderiam ser representados pelo sistema nervoso como códigos neurais que nada têm a ver diretamente com as características espaciais e temporais daquilo que representam. Esses mecanismos sugerem um análogo neural, ainda que metafórico, ao espaço-tempo físico.

Blocos de Tempo
Heráclito de Éfeso, que viveu na Grécia entre os séculos VI e V a.C., via o Universo como um processo contínuo de mudança: "todas as coisas estão em perpétuo estado de fluxo". Um de seus mais famosos aforismos diz que "no mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos". Ou seja, não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez as águas do rio - em perpétuo fluxo - já não serão as mesmas, assim como nós mesmos já teremos mudado.

No entanto, o escrutínio filosófico e as formalizações físicas não conseguem determinar a existência de um fluxo temporal único, contínuo e objetivo. Não há resposta para certas perguntas, por exemplo, "qual a velocidade do tempo?" (exceto, talvez, para uma personagem do escritor português José Saramago, que afirma que o tempo passa a uma velocidade de 60 minutos por hora). Esse incômodo beco sem saída tem levado à concepção do tempo como um bloco. O espaço-tempo de Minkowski conteria toda a eternidade: passado, presente e futuro mapeados nesse bloco único. Embora a sensação de um "agora" desempenhe papel central em nossa vida, a intuição é subvertida por concepções relativísticas, segundo as quais todos os instantes desse "tempo blocado" são igualmente reais. O fluir do tempo, do passado ao futuro, passando pelo "agora" que nitidamente sentimos, surgiria em nosso cérebro como o resultado de fazermos, ativa e conscientemente, uma observação desse bloco espaço-temporal. Essa observação então corresponderia, para cada observador, a uma fatia do bloco, que contém a cota de espaço que chamamos "aqui" e o instante de tempo que chamamos "agora".

Essa visão física se aproxima da concebida por Platão no século IV a.C. Em um de seus famosos diálogos, Timeu, o tempo seria uma "imagem móvel da eternidade". Já a concepção neurocientífica nos leva ao pensamento de Santo Agostinho, que viveu oito séculos mais tarde, para quem passado e futuro não existem. Quando olhamos para o passado, ele já se foi: é uma memória. Quando procuramos o futuro, ele ainda não chegou: é uma expectativa. Portanto, somente o presente existe, conclui o filósofo. O tempo seria uma criação da mente humana - quando medimos uma extensão temporal, estamos na verdade medindo memórias do passado e expectativas do futuro. Santo Agostinho é o primeiro pensador ocidental a destacar claramente o caráter subjetivo do tempo.

É possível que as múltiplas faces do tempo tenham individualidade própria. E que os múltiplos "tempos" tenham, portanto, de ser tratados de forma particularizada ou independente, pelo respectivo nível descritivo que o aborda. Seria preciso considerar por exemplo as diferentes naturezas da "fibra" do tempo, com a qual seriam tecidos, em diferentes planos, os múltiplos e distintos tempos físico, biológico, neural e social. Enquanto isso, continuaremos a enfrentar o desafio de compreender como o tempo flui através da mente, já que, fora dela, o rio de Heráclito existe, mas está congelado.




Tempo nas neurociências

O surgimento de mecanismos neurais que processam o tempo foi essencial para nossa evolução. O controle neural do tempo é crucial para atividades cuja escala varia entre milésimos de segundo a décadas. São elas: regulação de funções vegetativas e de comportamentos que oscilam periodicamente (ritmos biológicos); funções motoras nas quais a seqüência e coordenação de movimentos exigem grande precisão temporal, da ordem de milissegundos; percepção de sucessão, ordem, intervalos e durações temporais, que se estendem de frações de segundo às memórias que construímos ao longo da vida.

Em seres humanos e outros animais, o processamento neural do tempo tem sido abordado por meio de técnicas como ensaios comportamentais, análises moleculares, métodos eletrofisiológicos, farmacológicos, clínicos e de neuroimagem. Os resultados mais recentes indicam que diferentes módulos neurais participam dos diversos tipos de processamento temporal, dependendo da escala de tempo e da natureza da tarefa.

Ritmos circadianos, por exemplo, operam em períodos de 24 horas, determinando comportamentos tais como o ciclo vigília-sono e a alimentação. Seu controle depende de circuitos neurais localizados no núcleo supraquiasmático do hipotálamo, que oscilam sob a influência de ritmos externos, como o ciclo claro-escuro produzido pela rotação diária da Terra. Ritmos biológicos, produzidos endogenamente por osciladores neurais, são extremamente úteis no ajuste homeostático e na sincronização de comportamentos aos ritmos exógenos gerados pela natureza periódica de rotação e translação do planeta.

Estudos recentes mostram a existência de dois outros sistemas neurais, relativamente independentes, do processamento temporal. O primeiro é um sistema automático do qual participa o cerebelo, opera na escala de milissegundos e se relaciona à marcação temporal de eventos discretos (descontínuos). O segundo sistema relaciona-se a eventos contínuos, é controlado por mecanismos cognitivos e atencionais e envolve os núcleos da base e várias áreas corticais no processamento de eventos temporais cuja escala de tempo iguala ou supera um segundo. Observações clínicas sugerem que lesões cerebelares comprometem aspectos temporais determinantes da transição de estados motores, enquanto lesões dos núcleos da base comprometeriam, temporalmente, a transição de estados atencionais. Esses núcleos subcorticais parecem estar envolvidos, junto com circuitos dos córtices pré-frontal e parietal posterior, na representação cognitiva de números, seqüências e magnitudes. Dessa forma, áreas neurais comuns participariam de tarefas cuja essência são contagem e o ordenamento, seja temporal, seja numérico. Um possível papel dos núcleos da base seria o de monitorar a atividade que circula entre eles, o tálamo e o córtex cerebral, agindo como detectores de coincidência que controlam o fluxo de informação.

O Tempo na Física

Um dos pilares da física moderna é a obra monumental de Isaac Newton (1642-1727). Em um mesmo modelo teórico, Newton concebeu um sistema mecânico que unificou a física dos corpos em movimento - de maçãs caindo de árvores a órbitas de luas e planetas. A metafísica de Newton adotava a visão de tempo e espaço absolutos. Em relação ao espaço, ele defendia uma forma de "substantivalismo", de um espaço como "substância" - visão oposta ao "relacionismo" adotado por Leibniz, seu contemporâneo. Newton percebeu que, em relação ao espaço absoluto, um movimento uniforme, com velocidade constante, exigiria o fluir de um tempo absoluto. Como afirmou em sua obra Principia mathematica, "O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo, e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com nenhuma coisa externa. [...] Todos os movimentos podem ser acelerados ou retardados, mas o fluxo do tempo absoluto não é sujeito a nenhuma mudança".

Assim, um único "agora" preencheria todo o espaço, desde o local em que você, leitor, se encontra lendo essas páginas, até uma estrela distante, na borda da galáxia ou nos confins do Universo. Embora tenha despertado o questionamento crítico de alguns físicos e filósofos, essa cosmovisão persistiu por mais de 200 anos, e ainda hoje se encontra entranhada nas concepções de muitos de nós. Em meados do século XIX, James Clerk Maxwell colocou, ao lado da mecânica de Newton, uma síntese do eletromagnetismo igualmente unificadora, que expressava, por meio de quatro elegantes equações, todo um conjunto de resultados empíricos relativos a fenômenos elétricos e magnéticos. Com base nas equações de Maxwell, e em experimentos muito precisos realizados no final do século XIX, mostrou-se que a velocidade de uma onda eletromagnética (e, portanto, da luz) no vácuo, era a mesma em qualquer direção: pouco mais de 1 bilhão de km/h. Os resultados conduziram a uma inconveniente contradição entre essas duas teorias físicas - as mais bem-sucedidas até então.

O início do século XX foi marcado por abalos que dilaceraram os alicerces da física clássica. Personagem principal desse fecundo capítulo da história da ciência, Albert Einstein (1879-1955) protagonizou a demolição da física newtoniana. Com suas teorias da relatividade (a especial, de 1905, e a geral, de 1916), propôs um modelo de Universo no qual espaço e tempo não são independentes nem absolutos, mas se fundem em um único espaço-tempo quadridimensional, em que uma onda eletromagnética propaga-se com velocidade constante em relação a qualquer referencial inercial em que seja medida. Como conseqüência da constância da velocidade da luz, conceitos temporais como simultaneidade e duração ou espaciais, como distância e comprimento, tornam-se relativos a um dado referencial inercial. Com as teorias de Einstein, a unidade e a coerência da física foram preservadas e, de quebra, uma visão radicalmente nova do universo tomou o lugar das concepções usuais de espaço e tempo.

Para conhecer mais

O Tecido do Cosmo. Brian Greene, Companhia das Letras, 2005.
Time. Philip Turetzky, Routledge, 1998.

What makes us tick? Functional and neural mechanisms of interval timing. C. V. Buhusi e W. H. Meck, em Nature Reviews Neuroscience, vol. 6, págs. 755-765, 2005.

Os autores
MARCUS VINÍCIUS C. BALDO, médico e físico, é doutor em neurofisiologia pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. Coordena o Laboratório de Fisiologia Sensorial Roberto Vieira, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, onde estuda os mecanismos da percepção humana por meio de métodos psicofísicos e modelagem matemática e computacional. ANDRÉ M. CRAVO é psicólogo e HAMILTON HADDAD JR, formado em bioquímica, é mestre em neurofisiologia e atualmente estuda filosofia; ambos são alunos de doutorado do mesmo laboratório.

O que é um planeta?



A controvertida definição recém-estabelecida de "planeta", que expulsou Plutão do rol planetário, apesar de falha, contempla os princípios científicos essenciais

A definição de planeta aprovada pela IAU é baseada na arquitetura observada do Sistema Solar, em que um pequeno número de corpos dominantes, os oito planetas, tem órbitas bem separadas, em comparação aos enxames de asteróides, cometas e objetos do cinturão de Kuiper, que são menores

A maioria de nós aprendeu desde cedo a definir como planeta corpos que orbitam uma estrela, brilham ao refletir a luz estelar e são maiores que um asteróide. Embora a definição pudesse não ser muito precisa, ela claramente categorizava os corpos que conhecíamos na época. Mas na década de 90 uma série memorável de descobertas tornou-a insustentável. Além da órbita de Netuno, astrônomos encontraram centenas de mundos gelados, alguns bem grandes, ocupando uma região em forma de rosquinha denominada cinturão de Kuiper. Nos arredores de outras estrelas, identificaram mais planetas, muitos dos quais com órbitas em nada semelhantes às que vemos no Sistema Solar. Além disso, descobriram anãs-marrons, que dificultam a distinção entre planetas e estrelas. E deparam com objetos similares a planetas à deriva na escuridão do espaço interestelar.

Essas descobertas deram início a um debate sobre o que realmente seria um planeta e levaram à decisão de agosto último da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês), a principal sociedade profissional de astrônomos. Segundo os novos critérios, um planeta é um objeto que orbita uma estrela, é grande o suficiente para ter forma redonda e - o que é crucial - "limpou a vizinhança próxima à sua órbita". De forma controversa, a definição atual tira Plutão do rol planetário. Alguns astrônomos dizem que vão se recusar a usá-la e organizaram um abaixo-assinado de protesto.

Esse não é apenas um debate sobre palavras. A questão é cientificamente importante. A nova definição de planeta reflete avanços na forma como entendemos a arquitetura do nosso e de outros sistemas solares. Esses sistemas se originam por acreção: pequenos grãos se reúnem para formar grãos maiores, que então se juntam para estruturar pedaços ainda maiores, e assim por diante. No final, o processo dá origem a um pequeno número de corpos maciços - os planetas - e a um grande número de corpos bem menores - os asteróides e os cometas, que representam detritos deixados pela formação dos planetas. Em resumo, longe de ser categoria arbitrária, "planeta" é uma classe objetiva de corpos celestes.

Quando a Terra Virou Planeta
A reavaliação dos astrônomos a respeito da natureza planetária tem raízes históricas profundas. Os gregos antigos reconheciam sete luzes no céu que se moviam contra o padrão de estrelas de fundo: o Sol, a Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Eles os chamavam planetes, ou errantes. Note que a Terra não está na lista. Durante a maior parte da história humana, a Terra não era tida como planeta, mas como o centro - ou fundação - do Universo. Depois que Nicolau Copérnico persuadiu os astrônomos de sua época de que o Sol, e não a Terra, ficava no centro, eles redefiniram os planetas como objetos que orbitam o Sol, colocando a Terra na lista e retirando o Sol e a Lua. Urano foi incluído em 1781 e Netuno em 1846.

Ceres, descoberto em 1801, foi inicialmente apresentado como o planeta perdido que preenchia o vão entre Marte e Júpiter. Mas os astrônomos começaram a ter dúvidas quando encontraram Pallas numa órbita similar, no ano seguinte. Diferentemente dos planetas clássicos, que os telescópios mostravam como pequenos discos, tanto Ceres quanto Pallas apareciam como meros pontos de luz. O astrônomo inglês William Herschel propôs chamá-los de "asteróides". Em 1851, seu número havia aumentado para 15, e já era incômodo considerá-los todos planetas. Os astrônomos então decidiram listar os asteróides pela ordem de sua descoberta e não por sua distância do Sol, como faziam com os planetas - a aceitação de fato dos asteróides como membros de uma população distinta. Se ainda contássemos asteróides como planetas, as crianças que estudassem o Sistema Solar teriam agora de decorar 135 mil planetas numerados.

Plutão tem história similar. Descoberto por Clyde Tombaugh em 1930, foi recebido por astrônomos como o tão esperado "Planeta X", cuja gravidade responderia por peculiaridades inexplicadas na órbita de Netuno. Plutão acabou sendo o menor não só de todos os planetas, mas também menor que sete de suas luas, incluindo a da Terra. Outras análises revelaram que as peculiaridades na órbita de Netuno eram ilusões. Por seis décadas, Plutão foi uma anomalia singular na borda exterior do sistema planetário.

Assim como Ceres só começou a fazer sentido quando foi reconhecido como um exemplar da vasta população de asteróides, Plutão só se encaixou no momento em que os astrônomos viram tratar-se de um entre os inúmeros objetos do cinturão de Kuiper (KBOs, na sigla em inglês). Foi então que começaram a reconsiderar se Plutão ainda deveria ser denominado planeta. Historicamente, revogar o status planetário de Plutão não seria sem precedentes; a lista de ex-planetas inclui o Sol, a Lua e os asteróides. A despeito disso, muitas pessoas defendiam que Plutão continuasse sendo considerado planeta, porque quase todo mundo havia se acostumado a pensar nele dessa forma.

A descoberta em 2005 de Eris (antes conhecido como 2003 UB313 ou Xena), um objeto do cinturão de Kuiper ainda maior que Plutão, trouxe a questão para a ordem do dia. Se Plutão é um planeta, então Eris também deveria ser, ao lado de vários potenciais KBOs de grande porte; alternativamente, se Plutão não é planeta, nenhum outro KBO poderia ser. Em que termos objetivos os astrônomos poderiam decidir?

Limpando o Ar
Para evitar uma proliferação sem fim de planetas, Alan Stern e Harold Levison, do Instituto de Pesquisa Southwest, sugeriram em 2000 que um planeta poderia ser definido como um corpo menos maciço que uma estrela, mas grande o suficiente para que sua gravidade se sobreponha à sua rigidez estrutural e o deixe com forma redonda. A maioria dos corpos com raio maior que algumas centenas de quilômetros satisfaz esse último critério. Os menores com freqüência têm forma irregular; muitos deles são basicamente montanhas gigantes.

Essa foi a definição escolhida no início de agosto pelo Comitê de Definição de Planeta da IAU, chefiado por Owen Gingerich, da Universidade Harvard. Ela teria mantido Plutão como planeta, mas ao custo de admitir potencialmente dezenas de KBOs e restaurar o status planetário de Ceres, o maior asteróide e o único sabidamente esférico.

Muitos astrônomos argumentaram que o critério da esfericidade seria inadequado. Em termos práticos, é muito difícil observar as formas de KBOs distantes, por isso seu status permaneceria ambíguo. Além do mais, asteróides e KBOs cobrem um espectro quase contínuo de tamanhos e formas. Como devemos quantificar o grau de esfericidade que distingue um planeta? A gravidade domina esse corpo se sua forma se desviar de um esferóide por 10% ou 1%? A Natureza não fornece um vão desocupado entre formas redondas e não-redondas, então qualquer fronteira seria arbitrária.

Stern e Levison propuseram outro critério que, no entanto, leva a uma forma não-arbitrária de classificar objetos. Eles apontaram que alguns corpos no Sistema Solar são suficientemente maciços para engolir ou espantar a maioria de seus vizinhos imediatos. Corpos menores, incapazes de fazer isso, ocupam órbitas instáveis e transitórias e têm um guardião peso-pesado que estabiliza suas órbitas. Por exemplo, a Terra é grande o suficiente para engolir ou afastar qualquer corpo que chegue perto demais, como um asteróide próximo. Ao mesmo tempo, a Terra protege sua Lua de ser engolida ou afastada. Cada um dos quatro planetas gigantes comanda uma série de satélites. Júpiter e Netuno também mantêm suas próprias famílias de asteróides e KBOs (chamados Troianos e Plutinos, respectivamente) em órbitas especiais denominadas ressonâncias estáveis, onde uma sincronia orbital impede colisões com os planetas.

Esses efeitos dinâmicos sugerem uma forma prática para a definição de planeta: um corpo maciço o suficiente para dominar sua zona orbital, ao afastar objetos menores, incorporá-los por colisões, ou mantê-los em órbitas estáveis. Segundo a física orbital básica, a probabilidade de um corpo maciço defletir um menor de sua vizinhança durante o tempo de vida atual do Sistema Solar é mais ou menos proporcional ao quadrado de sua massa (que determina o alcance gravitacional do corpo maciço por dada quantidade de deflexão) e inversamente proporcional ao período orbital (que governa a taxa em que os encontros ocorrem).

Os oito planetas, de Mercúrio a Netuno, têm probabilidade milhares de vezes maior de engolir ou afastar vizinhos pequenos que mesmo os maiores asteróides e KBOs (onde estão incluídos Ceres, Plutão e Eris). Mercúrio e Marte, por si mesmos, não têm massa suficiente para dissipar todos os corpos nas redondezas. Mas Mercúrio ainda é grande o bastante para afastar a maioria dos objetos que cruzam sua órbita, e Marte tem influência gravitacional suficiente para defletir corpos em trânsito em órbitas instáveis próximas, incluindo algumas com períodos com exatamente um terço ou um quarto do de Júpiter. A gravidade do planeta gigante então completa a tarefa de ejetar esses objetos da vizinhança de Marte.

A habilidade de limpar a vizinhança depende de um contexto dinâmico específico; não é propriedade intrínseca do próprio corpo. No entanto, a grande diferença em poder dinâmico fornece uma maneira clara de distinguir planetas de outros corpos. Não precisamos de uma distinção arbitrária porque, pelo menos em nosso próprio Sistema Solar, a Natureza faz isso por nós.

Reis de seus Reinos
Um critério próximo a este foi proposto em 2004 pelo astrônomo Michael Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). De acordo com sua definição, "qualquer corpo no Sistema Solar mais maciço que a massa total de todos os outros corpos em órbitas similares" é um planeta. Para tornar isso mais preciso, sugeri substituir "órbita similar" pelo conceito de zona orbital. Dois corpos compartilham essa zona se suas órbitas em algum ponto se cruzam, se seus períodos orbitais diferem por um fator inferior a 10 e se eles não estão em ressonância estável. Para aplicar a definição, fiz um censo dos corpos pequenos conhecidos que orbitam o Sol.

A Terra, por exemplo, compartilha sua zona orbital com cerca de mil asteróides com mais de 1 km de diâmetro, a maior parte deles praticamente "recém-chegados" do cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter. Eles somam menos de 0,0001% da massa de nosso planeta. A razão entre a massa de um corpo e a massa de todos os outros corpos que compartilham sua zona orbital pode ser abreviada por µ. Para a Terra, µ é cerca de 1,7 milhão. Na verdade, a Terra parece ter o maior valor de µ no Sistema Solar. Júpiter é 318 vezes mais maciço, mas compartilha sua zona orbital com um grupo maior de objetos. Marte tem o menor valor de µ de todos os planetas clássicos (5.100), mas mesmo esse é bem maior que o valor de Ceres (0,33) ou Plutão (0,07). O resultado é assustador: os planetas estão num campeonato diferente dos asteróides e KBOs, e Plutão é claramente um KBO.

Esse argumento ajudou a persuadir a IAU a definir um planeta em termos de "limpar" sua vizinhança orbital. A IAU pode ter de emendar a definição para especificar que grau de limpeza qualifica um corpo como planeta. Sugeri estabelecer um valor de corte para µ de 100. Ou seja, um corpo em nosso Sistema Solar é um planeta se responder por mais de 99% da massa de sua zona orbital. Mas o valor exato desse corte não é crítico. Qualquer valor entre 10 e 1.000 teria o mesmo efeito.

Um planeta é, portanto, um corpo que engoliu ou espalhou a maior parte da massa de sua zona orbital. A divisão clara de corpos em planetas e não-planetas revela aspectos importantes do processo que formou o Sistema Solar. Todos esses corpos cresceram de um disco achatado de gás e poeira em órbita do Sol primordial. Na competição pela quantidade limitada de material bruto, alguns corpos venceram. Seu crescimento se tornou auto-reforçador, de modo que, em vez de um espectro contínuo de corpos de todos os tamanhos, o resultado foi um único corpo grande que dominou cada zona orbital. Os corpos menores foram capturados pelos maiores, ejetados do Sistema Solar ou engolidos pelo Sol, e os sobreviventes se tornaram os planetas que vemos hoje. Os asteróides e cometas, incluindo os KBOs, são detritos que sobraram.

Nosso Sistema Solar está agora na fase final de limpeza. Os asteróides têm órbitas que permitem sua colisão entre si e com os planetas. O cinturão de Kuiper é remanescente da região exterior do disco de acreção original, onde o material era muito esparso para formar outro planeta. Os planetas do nosso Sistema Solar têm órbitas que não se cruzam e, portanto, não podem colidir. Como os corpos dinamicamente dominantes, eles precisam ser poucos em número. Se outro planeta tentasse se colocar entre os existentes, perturbações gravitacionais rapidamente desestabilizariam sua órbita.

Uma situação similar parece verdadeira também para outros sistemas planetários. Até agora, pesquisadores encontraram cerca de 20 sistemas com mais de um planeta. Na maioria, os planetas têm órbitas sem intersecção, e nas três exceções as órbitas sobrepostas parecem estar em ressonância, possibilitando que os planetas sobrevivam sem colidir. Todos os companheiros não-estelares de estrelas como o Sol têm grandes valores de µ e se qualificariam como planetas pelo critério de dominação dinâmica.

Fim de Jogo
Planeta é o produto final da acreção de um disco ao redor de uma estrela. Essa definição se aplica apenas a sistemas maduros, como o nosso, em que a acreção já foi completada. Para sistemas mais jovens, os corpos maiores não são estritamente planetas, mas sim embriões planetários, e os corpos menores são denominados planetesimais.

A definição da IAU ainda inclui a esfericidade como critério para distinguir um planeta, embora estritamente falando isso seja desnecessário. O critério da limpeza orbital já diferencia planetas de asteróides e cometas. A definição também remove a necessidade de um limite superior de massa para separar planetas de estrelas e anãs-marrons. As relativamente raras anãs-marrons que servem de companheiras de estrelas em órbitas próximas podem ser classificadas como planetas; diferentemente das anãs-marrons em órbitas maiores, elas devem ter se formado do disco de acreção.

Em resumo, a diferença entre planetas e não-planetas é quantificável, tanto na teoria quanto por observações. Todos os planetas do nosso Sistema Solar têm massa suficiente para ter engolido ou espalhado todos os planetesimais originais de suas zonas orbitais. Hoje, cada planeta contém pelo menos 5 mil vezes mais massa que todos os detritos em sua vizinhança. Asteróides, cometas e KBOs, incluindo Plutão, em contraste, vivem em meio a grupos de corpos comparáveis.

Uma objeção considerável a qualquer definição desse tipo é o argumento de que objetos astronômicos deveriam ser classificados apenas por suas propriedades intrínsecas, como tamanho, forma ou composição, e não por sua localização ou contexto dinâmico. Esse argumento ignora o fato de que os astrônomos classificam todos os objetos que orbitam planetas como "luas", embora dois deles sejam maiores que Mercúrio e muitos sejam asteróides e cometas capturados. Contexto e localização são claramente importantes. De fato, a distância ao Sol determinou que corpos mais próximos se tornassem pequenos planetas rochosos e os mais distantes virassem planetas gigantes ricos em gelo e gases voláteis. A nova definição distingue planetas - que dinamicamente dominam um grande volume de espaço orbital - de asteróides, KBOs e embriões planetários ejetados, incapazes de exercer tal domínio. Os oito planetas são os produtos finais dominantes do disco de acreção e diferem reconhecidamente das vastas populações de asteróides e KBOs.

A definição histórica dos nove planetas sem dúvida desempenha forte atração sentimental. Mas definições ad hoc criadas para proteger Plutão tendem a esconder do público as mudanças profundas que ocorreram desde o início da década de 90 na forma como entendemos a origem e a arquitetura do Sistema Solar.

Por 76 anos, nossas escolas ensinaram que Plutão era um planeta. Alguns argumentam que cultura e tradição são suficientes para deixar as coisas assim. Mas a ciência não pode se prender a enganos do passado. Para ser útil, uma definição científica deveria refletir a estrutura do mundo natural. Podemos revisá-las quando necessário para refletir o melhor entendimento decorrente das novas descobertas. O debate na definição de um planeta irá fornecer a educadores um exemplo didático de como conceitos científicos não estão gravados em pedra, mas continuam evoluindo.




Resumo/Definição de Planeta
Em agosto último, membros da União Astronômica Internacional votaram para definir como planeta todo corpo que orbita uma estrela, é grande o suficiente para ser redondo e limpou outros corpos de sua vizinhança. A definição foi criada para dar fim a um longo debate, mas parece ter apenas colocado lenha na fogueira.

Os críticos qualificaram a definição de arbitrária e imprecisa, mas a acusação é infundada. O Sistema Solar se divide claramente entre oito corpos maciços o suficiente para dominar suas zonas orbitais e grupos de objetos menores que ocupam órbitas que se cruzam. Esse padrão parece refletir a forma como o Sistema Solar foi formado e evoluiu.